O Maracanã viu de tudo numa noite só: um recorde histórico, um time frio na definição e uma classificação sem sobressaltos. Com gols de Kevin Serna e Martinelli, o Fluminense fez 2 a 0 no América de Cali e avançou às quartas de final da Copa Sudamericana, fechando o confronto em 4 a 1 no agregado. O resultado coroou também um marco raro: Fábio chegou a 1.391 partidas oficiais e se tornou o jogador com mais jogos na história do futebol mundial, segundo a contagem divulgada pelo clube.
O triunfo teve peso extra pelo contexto. O América de Cali vinha de eliminar Corinthians e Bahia e chegou ao Rio disposto a complicar. Não conseguiu. O Fluminense, que já havia vencido por 2 a 1 no Estádio Pascual Guerrero, em Cali, foi seguro atrás e certeiro na frente. Não foi um show de posse, mas foi um jogo adulto, de controle emocional e execução.
Renato Gaúcho não mexeu no plano. Manteve a mesma base da ida, inclusive o trio de meio com Hércules, Martinelli e Lima — este último vaiado na abertura do sistema de som, antes da bola rolar. A escolha se pagou em campo. Martinelli fez um jogo completo, de área a área, e Hércules foi o elo entre a recuperação e a criação. Lima, discreto, cumpriu a tarefa de dar equilíbrio e manter a bola quando o time precisava respirar.
O América começou melhor, adiantando linhas e apertando a saída tricolor. O Flu sofreu para limpar a primeira bola e, por alguns minutos, ficou encurralado. Foi aí que apareceu a leitura de jogo de Hércules. Aos 23 minutos, ele arrancou pelo meio, atraiu a marcação e achou Kevin Serna solto na entrada da área. O colombiano bateu no canto, rasteiro, com precisão. Grito preso saiu, e a maré virou a favor dos mandantes.
Com o 1 a 0, o cenário ficou confortável. O América precisaria de dois gols só para levar a decisão para os pênaltis, e o Fluminense pôde jogar no erro do adversário. Canobbio virou válvula de escape pelos lados, acelerando contra-ataques e puxando a defesa colombiana para trás. Sem se expor, o time de Renato esperou o momento certo para matar.
O segundo tempo trouxe o América mais urgente, mas sem tanta clareza no terço final. Fábio, o homem da noite, quase não trabalhou. O que veio foi chute de média distância e cruzamento para a área. A zaga cortou por cima, e o veterano administrou o que apareceu com a calma de sempre, orientando a linha defensiva o tempo todo.
O golpe final veio em uma pintura. Martinelli recebeu de Canobbio na meia-lua, ajeitou e mandou no ângulo direito, sem defesa. Um chute que não é só bonito; diz muito sobre o volante que vem crescendo no ano, chegando mais na área e aparecendo como opção de finalização. Ao 2 a 0, a classificação ficou protocolar.
O jogo contou com mais de 30 mil pessoas no Maracanã. A energia oscilou entre a ansiedade do começo e a festa à medida que a classificação se consolidava. O clima de vaias para Lima no anúncio inicial não passou para dentro de campo. O meia foi funcional, marcou, fechou linha de passe e deu continuidade às jogadas simples. Nada de brilho individual, mas um papel tático que ajudou a segurar o meio.
Na prancheta, o Fluminense venceu pelos detalhes. O trio de meio conseguiu encurtar espaços, vencer duelos de segunda bola e transformar recuperação em transição rápida. Sem a obrigação de controlar o relógio com posse longa, o time escolheu bem quando acelerar. Poucos toques, passes verticais e gente pisando na área no tempo certo. Eficiência costuma ganhar mata-mata.
Do outro lado, o América esbarrou na falta de capricho na hora de decidir. Teve volume no começo, mas não transformou presença no campo ofensivo em chances claras. Quando precisou arriscar, deixou brechas nas costas. A diferença entre os dois foi a qualidade no último passe e na finalização — e isso apareceu em cada gol tricolor.
A noite também serviu para rubrica de carreira. A marca de Fábio é fruto de longevidade rara e disciplina que atravessa décadas de calendário pesado no Brasil e no continente. Contra o América, ele não precisou de grandes defesas para ser decisivo. Bastou ser o ponto de segurança e referência. A simples presença dele organiza o time.
O placar agregado de 4 a 1 conta a história do confronto: maturidade em Cali, contundência no Rio. Em dois jogos, o Fluminense mostrou algo que faltou em outras fases da temporada: consistência. Quando não teve a bola, defendeu bem a própria área. Quando recuperou, foi direto. Quando precisou, esfriou o jogo.
Renato Gaúcho sai fortalecido pela aposta na repetição. Em mata-mata, ter uma base ajuda. Os jogadores se reconhecem melhor, o time perde menos com a bola no pé, os mecanismos aparecem. Ainda que a arquibancada pedisse mudanças, o treinador bancou a ideia e foi recompensado com um desempenho sólido dos três do meio, além da mobilidade dos homens de lado.
O Fluminense agora aguarda o sorteio das quartas de final. A direção trabalha com o foco dividido entre a sequência do calendário doméstico e os mata-matas continentais, e a comissão técnica avalia minutagem para evitar desgaste. A boa notícia é que o grupo sai do confronto inteiro e com confiança elevada, dois fatores decisivos para a reta final do inverno no futebol brasileiro.
Em jogos assim, detalhes viram narrativa. Kevin Serna aproveitou a chance e abriu o caminho. Martinelli vive fase de afirmação e entregou um golaço. Hércules somou condução, passe e leitura. Canobbio ofereceu profundidade e velocidade. E Fábio costurou tudo com a experiência de quem já viu quase todas as histórias possíveis no gol.
Para quem olha adiante, a chave está no equilíbrio. O Fluminense mostrou que não depende de um único formato: pode ter menos posse e, mesmo assim, ser protagonista pelo jeito de ocupar espaços e pela qualidade do último toque. Em noite de nervos controlados, o time entendeu o ritmo do mata-mata e não foi arrastado pelo desespero do adversário.
O sorteio das quartas deve definir não só o adversário, mas também o tipo de estratégia para o próximo capítulo. Contra rivais que marcam alto, a saída que envolveu Hércules por dentro funcionou. Diante de equipes que fecham bloco baixo, será preciso mais volume por dentro e infiltração sem bola, algo que Martinelli tem entregado. Com tempo de treino curto, a repetição da base pode ser a carta de Renato para atravessar a fase.
Por enquanto, o recado do Maracanã é simples: quando junta solidez com aproveitamento nas chances criadas, o Fluminense fica difícil de bater. A classificação foi a soma disso tudo — e de uma noite em que o goleiro que mais jogou na história seguiu fazendo o que sempre fez: liderar em silêncio.
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